O Evangelho do Anti-Cristo

Analisemos: Se somente Jesus foi Filho de Deus (Vida eterna), e nenhum outro ser humano pode ser também, como muitos ainda acreditam e pregam, então Jesus não seria humano como nós. Mas, segundo o apóstolo João Evangelista, este é precisamente o Evangelho do anti-Cristo (I João, 4:1 a 3). Ou seja, anti-Cristo são aqueles que pregam que Jesus Cristo "não veio em carne", ou melhor, aqueles que pregam que Jesus Cristo não era humano como cada um de nós. Logo, se Jesus era humano como nós, então nós também somos de fato, Filhos de Deus agora (da Vida Universal). Assim sendo, "eu e o Pai somos um só", "tudo o que o Pai tem é meu". Não importando, se eu tenho ainda uma aparência humana, assim como Jesus teve.


Se ninguém é digno realmente, segundo a crença moralista de João Batista (conforme sua pregação descrita nos Evangelhos), então nem mesmo Jesus foi digno, já que Ele era humano. É assim que funciona o cérebro ilógico (condicionado por crenças humanas), pouco iluminado (João, 5:30 a 47). Ele é naturalmente pessimista, baixo astral.


Portanto leia, por favor, tais versículos indicados com calma e atenção. Os versículos dizem claramente que Jesus era humano como nós. Mesmo porque na realidade, não poderia ser diferente cientificamente falando. Se Jesus não podia fazer coisa alguma de si mesmo, logo Ele era como nós. Pois o corpo é inerte se a vida infinita e eterna não vivificá-lo.


Segundo consta nestes versículos, o testemunho de João Batista a respeito da verdade, apesar de verdadeiro, era teórico (teoria intelectual de salvação, a respeito da vida eterna baseada na profecia do Velho Testamento). Por isso Jesus disse que Ele não precisava de testemunho de homens intelectuais, porque as obras que Ele executava na prática comprovavam por si mesmas que Ele era a própria Vida eterna revelada agora. A consciência e lucidez da vida real, manifestada através de uma pessoa humana.


Jesus disse que João Batista era a candeia que ardia e iluminava (vela ou candeeiro, "pouco brilho"), que o povo quis, ou preferiu se alegrar por um pouco de tempo com a sua limitada luz. Ou seja, isto é uma questão de opção. "Seja feito conforme você acredita", disse Jesus. Agora, se você já percebeu intuitivamente que precisa ser aprovado para uma matéria mais avançada, então não se acomode e não se apegue as religiões, por mais "esclarecidas" que elas sejam.


Assim falou Jesus a respeito de João Batista:


Ele era a candeia que ardia e alumiava; e vós quisestes alegrar-vos por um pouco de tempo com a sua luz. (João, 5:35).

Portanto, tal verdade religiosa iluminava pouco e provisoriamente (iniciação espiritual através das religiões). A frase "a candeia que ardia e alumiava", significa o fogo da paixão ou a convicção religiosa dos devotos, baseado em um conhecimento limitado e superficial sobre a espiritualidade ou vida eterna.


Nestes versículos citados, na verdade o que Jesus fez foi questionar a eficácia da religião moralista de João Batista, exatamente como Nietzsche questionou Kant. Veja como Nietzsche exemplificou também isso:


Todos os filósofos construíram sob a sedução da moral, inclusive Kant - que aparentemente seu propósito dirigia-se à certeza, à "verdade", mas, na realidade, a "majestosos edifícios morais": para nos servirmos uma vez mais da inocente linguagem de Kant, que caracteriza sua tarefa "de pouco brilho, mas não sem algum mérito", como sendo a de "aplainar e preparar o solo para esses majestosos edifícios morais" (Crítica da razão pura, II, p. 257). Oh, ele não conseguiu fazer isso, pelo contrário! (Nietzsche em "Aurora").

Nem mesmo João Batista conseguiu cuja missão era a mesma, ou seja, a de "preparar o caminho do Senhor" (linguagem bíblica), ou aplainar e preparar o solo para o despertar da consciência espiritual da humanidade (revelação do potencial da vida real interior em cada um de nós agora). Pois, continuou pregando a vida eterna no além (no futuro), e o castigo eterno de Deus. Além de uma doutrina muito rígida e impraticável. Mesmo assim, Jesus disse também que João Batista tinha algum mérito, porém o Cristo interior não depende de tal testemunho intelectual limitado (equivocado), de filosofias ou religiões para se revelar através de nós (humanos) aqui e agora, embora isso ainda seja necessário, devido o limitado estado de consciência das pessoas.


Não foram somente João Batista e Kant que tiveram esta tarefa. Ainda hoje tal tarefa de pouco brilho pertence à maioria das religiões e filosofias, e alguns indivíduos que se dizem iluminados. Porém, agora já está surgindo o almejado novamente, o despertar da consciência em alguns indivíduos. Mas quem não estiver ainda preparado, terá dificuldade em compreendê-los, com certeza. O mesmo aconteceu na época de Jesus. É preciso humildade para ouvir a verdade simples. Há alguns indivíduos que além de preparar o caminho, vai um pouco mais além, utilizando ainda uma linguagem religiosa devido à necessidade das pessoas. É a sabedoria espiritual agindo de diversas formas, para conscientizar e libertar a humanidade da ignorância.


Estes méritos são mais ou menos profundos, porém é claro que Kant foi muito mais sábio que João Batista.


Confira como Jesus também se referiu a tais tarefas ainda necessárias, porém de pouco brilho:


Se eu testifico de mim mesmo, o meu testemunho não é verdadeiro. Há outro que testifica de mim, e sei que o testemunho que ele dá de mim é verdadeiro. Vós mandastes a João, e ele deu testemunho da verdade. Eu, porém, não recebo testemunho de homem, mas digo isso, para que vos salveis. Ele era a candeia que ardia e alumiava; e vós quisestes alegrar-vos por um pouco de tempo com a sua luz. Mas eu tenho maior testemunho do que o de João, porque as obras que o Pai me deu para realizar, as mesmas obras que eu faço testificam de mim, de que o Pai me enviou (João, 5:31 a 36).

Conclusão, mesmo estando escrito nos Evangelhos que João Batista foi um anjo enviado por Deus, Jesus disse que João foi enviado pelos homens, ou seja, pela religião (teorias intelectuais de salvação). Essa aparente contradição significa que Deus (a vida) a ninguém julga, nem discrimina (João, 5:22). Cada um se encontra em seu grau de iniciação ou conscientização espiritual.


Conforme as profecias do Velho Testamento e confirmações no Novo Testamento, Elias (anjo do Senhor) foi enviado de fato como João Batista para cumprir tal missão. Porém, a qualidade de cada missão depende sempre do estado de consciência que cada um atinge. Sobre a reencarnação de Elias, veremos mais detalhadamente em outra oportunidade, porque o assunto é ainda bem polêmico, apesar de estar registrado claramente na Bíblia.


Perceba que Jesus pregou a mesma coisa que Nietzsche, porém o conteúdo verdadeiro foi quase totalmente perdido, mesclado com a doutrina sombria dos fariseus. Perceba o tesouro que quase perdemos por inteiro devido à ignorância e o fanatismo religioso. João Batista era moralista assim como Kant, e Jesus assim como Nietzsche questionou tal moralismo, já que Jesus não era abstêmio, nem tinha a mesma pose de santo de João Batista.


João Batista apesar de atrair a multidão com sua doutrina moralista (tarefa de pouco brilho), através do testemunho teórico da verdade eterna, continha uma pequena luz que ardia devido à devoção e convicção religiosa, a qual servia para iluminar as pessoas por um pouco de tempo. Portanto, Jesus se referiu a iniciação espiritual das pessoas, a necessidade de ter uma religião até estarem preparadas para irem além. Quanto à pequena luz (pouco brilho), me refiro a candeia ou candeeiro que Jesus exemplificou. Inclusive, o filósofo Nietzsche também se referiu a respeito da importância da religião, através da qual nos tornamos sábios, quando conseguimos ir além dela. Quando nos libertamos dos rituais e crenças que escravizam provisoriamente a vida.


É ingenuidade acreditar que Jesus era um religioso moralista e tinha a mesma visão e convicção de João Batista. Há provas nos Evangelhos de que Jesus era radicalmente oposto. Mas não queremos enxergar, todavia devido nossas convicções moldadas pelas religiões moralistas, e por termos aceitado interpretações superficiais e precipitadas de terceiros, como sendo a verdade.

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