Evolução Humana

Havia um tempo primitivo do ser humano, no qual este se situava ao coração da natureza, tendo alcançado nesta naturalidade o ideal da humanidade, em bondade e estados artísticos paradisíacos. Todos nós descendemos de tal homem primitivo perfeito, e cuja imagem fiel ainda poderíamos ser, se deitássemos fora algumas qualidades a fim de nos reconhecermos como sendo tal homem primitivo, mediante renúncia voluntária à erudição supérflua, à cultura excessivamente rica. O homem de cultura da Renascença recua, por sua imitação operesca, da tragédia grega a uma consonância de tragédia, assim como Dante se aproveitou de Virgílio, para ser guiado até as portas do Paraíso, enquanto que ele continuou o seu caminho, passando da imitação das formas mais elevadas da cultura grega à "restituição de todas as coisas", à imitação do primitivo mundo artístico do homem. (Nietzsche em "A Origem da Tragédia").


Todos os filósofos têm em comum o defeito de partir do homem atual e acreditar que, analisando-o, alcançam seu objetivo. Involuntariamente imaginam "o homem" como uma eterna veritas (verdade eterna), como uma constante em todo o redemoinho, uma medida segura das coisas. Mas tudo o que o filósofo declara sobre o homem, no fundo, não passa de testemunho sobre o homem de um espaço de tempo bem limitado. Falta de sentido histórico é o defeito hereditário de todos os filósofos; inadvertidamente, muitos chegam a tomar a configuração mais recente do homem, tal como surgiu sob a pressão de certas religiões e mesmo de certos eventos político, como a forma fixa de que se deve partir. Não querem aprender que o homem veio a ser, e que mesmo a faculdade de cognição veio a ser; enquanto alguns deles querem inclusive que o mundo inteiro seja tecido e derivado dessa faculdade de cognição. - Mas tudo o que é essencial na evolução humana se realizou em tempos primitivos, antes desses quatro mil anos que conhecemos aproximadamente; nestes o homem já não deve ter se alterado muito. O filósofo, porém, vê "instintos" no homem atual e supõe que estejam entre os fatos inalteráveis do homem, e que possam então fornecer uma chave para a compreensão do mundo em geral: toda a teleologia se baseia no fato de se tratar o homem (físico) dos últimos quatro milênios como um ser eterno, para o qual se dirigem naturalmente todas as coisas do mundo, desde o seu início. Mas tudo veio a ser; não existem fatos eternos: assim como não existem verdades absolutas. - Portanto, o filosofar histórico é doravante necessário, e com ele a virtude da modéstia.


Diante de tudo o que é perfeito, estamos acostumados a omitir a questão do vir a ser e desfrutar sua presença como se aquilo tivesse brotado magicamente do chão. É provável que nisso ainda estejamos sob o efeito de um sentimento mitológico arcaico.


Está fora de dúvida
que a ciência da arte deve se opor firmemente a essa ilusão e apontar as falsas conclusões e maus costumes do intelecto, que o fazem cair nas malhas do artista. (Nietzsche em "Humano, demasiado humano").

Imaginar o ser humano como algo separado da natureza e dos demais animais, como se o homem fosse feito fisicamente de um pó de terra diferente e especial, concebido já adulto e sem passar pela evolução das espécies (almas viventes), significa fantasia mental. Isto é ainda uma visão ingênua e infantil de alguns filósofos e religiosos. "Sentimento mitológico arcaico".


Na realidade, o ser humano não surgiu de repente, independente da evolução da natureza, pois o ser humano também é alma vivente como os demais animais, segundo a Bíblia. O ser humano não nasceu com o intelecto já desenvolvido, já sabendo falar e escrever, mesmo tendo existido em um passado remoto, civilizações mais avançadas do que a nossa atual, inclusive em matéria de matemática. Mas o homem "sabido" atual não tem humildade suficiente para admitir tal verdade, mesmo tais civilizações tendo deixado provas concretas de sua existência, como as pirâmides, por exemplo. Isto significa que a humanidade evoluiu algumas vezes, e depois, devido o desaparecimento das civilizações mais evoluídas, quem sobreviveu foi obrigado a recomeçar e aprender tudo novamente.


Por incrível que pareça, ainda hoje existem pessoas que acreditam que o homem atual não passou pela evolução das espécies, devido ainda não compreenderem a simplicidade do livro de Gênesis (sua simbologia). Estes são aqueles que seguem a Bíblia ao pé da letra. Parece que não percebem que o corpo humano é também alma vivente (animal). Ainda confundem o fôlego da vida orgânica (o ar), inalados pelas narinas de todos os seres vivos, com Espírito ou a Vida.


Muitos religiosos negam ingenuamente e abertamente a evolução humana, alegando que o homem foi criado por Deus. Porém, e os demais animais (almas viventes também), por acaso, não foram criados também por Deus (ou a Vida)? Então, como o homem foi criado por Deus? Como ele surgiu inicialmente na terra? Afinal, o ser humano já nasceu de fato adulto, sem passar pela evolução das espécies (almas viventes)? É isso que o filósofo Nietzsche denomina com razão de "falta de sentido histórico".


O método científico do filósofo e matemático René Descartes aqui observado, a Dúvida Metódica, não é crença, porém ciência. No próximo artigo vamos ao que realmente interessa, ou seja, a um outro método científico, o Filosofar Histórico do filósofo Nietzsche. Procurando retraduzir sempre a história em termos de realidade, porque se não foi real então não interessa e não serve para nada, já que não tem fundamento. Acompanhe o próximo artigo, o qual será inserido na seção "Filosofar Histórico".


0 comentários:

Postar um comentário

Em "Comentar como" (logo abaixo) escolha uma das opções de perfil, depois clique em "Postar comentário":
- Coloque a URL de seu blog ou site (se tiver), no local correto;
- Os comentários são publicados após analisados.

Não serão aprovados comentários:
- ofensivos;
- não relacionados ao tema;
- com propagandas incluídas no texto.
Obrigado pela visita!

Maior é o que está em vós do que o que está no mundo (I João 4:4)

BlogBlogs.Com.Br