Origem da Má Consciência
Não posso deixar de apresentar uma primeira expressão sobre minha própria hipótese acerca da origem da "má consciência", que não é fácil de entender e necessita ser meditada durante muito tempo, passar vigílias e noites sobre ela. Considera a má consciência como a profunda doença, na qual o homem que devia ter caído sob a pressão da mais radical de todas as modificações que viveu de maneira geral - a modificação que sobreveio quando se viu definitivamente prisioneiro da feitiçaria da sociedade e da paz. À maneira dos animais aquáticos obrigados a se adaptarem a viver em terra ou a morrer, não foi outra coisa que aconteceu a esses semi-animais, acostumados à vida selvagem, à guerra, às correrias, às aventuras, quando se viram obrigados de repente a renunciar a todos os seus instintos. Era preciso andar a pé, a "levarem-se a si mesmos", quando até então os havia levado a água; um peso enorme os esmagava. Sentiam-se inaptos para as funções mais simples; nesse mundo novo e desconhecido não tinham seus antigos guias, os instintos reguladores, inconscientemente infalíveis; viam-se reduzidos a pensar, a concluir, a calcular, a combinar causas e efeitos. Infelizes! Viam-se reduzidos à sua "consciência" (raciocínio), a seu órgão mais fraco e mais exposto ao ridículo! Creio que nunca houve na terra desgraça tão grande, mal-estar tão horrível! Acrescente-se a isso que os antigos instintos não haviam renunciado de vez a suas exigências. Mas era difícil e raramente possível satisfaze-las; era preciso procurar satisfações novas e subterrâneas. Todos os instintos sob a enorme força repressiva, volvem para dentro, e a isso chamo interiorização do homem; assim se desenvolve o que mais tarde será chamada "alma" (Nietzsche).
Quanto a essa tal "alma", Nietzsche se refere a uma alma fraca, influenciada pelo medo e sentimento de culpa.
O filósofo Nietzsche descreveu aí a reação da mente como instrumento de sobrevivência. Ou seja, as religiões moralistas reprimiram os instintos naturais do ser humano, mas os instintos nunca renunciam suas exigências naturais, mesmo sendo reprimidos, desse modo tais instintos procuram satisfações novas, assim surgem os vícios (compulsão). Inclusive, o apóstolo Paulo falou sobre isso também, entre outras palavras (Romanos, 1:22 a 28). Fora o exagero acrescentado por fanáticos.
Muitos que eram e são chamados ainda de gentios pelos religiosos, são na verdade ex-religiosos que ainda não foram capazes de ir além da influência de sua religião anterior, e vivem hoje as conseqüências da repressão de suas ex-religiões. Outros têm pavor de uma religião moralista (quando são sinceros), mas não percebem que estão vivendo no outro extremo da mente, mesmo que ainda estejam dentro de tais religiões. Depois da repressão religiosa vem à decadência como conseqüência, psicologicamente falando, até alcançar o equilíbrio.
Apesar desta incrível percepção, Nietzsche parece que não tinha certeza que tudo isso aconteceu inicialmente por intermédio da mulher, embora suspeitasse, conforme constam certos comentários em alguns de seus livros. Se ele não tivesse ignorado e zombado da simplicidade do livro de Gênesis, teria compreendido melhor como tudo aconteceu.
Quanto à "guerra" que o seu texto se refere, não devemos confundir instintos naturais com o ego (egoísmo exagerado ou equívoco intelectual). Os homens primitivos e selvagens, nem sempre são assim tão violentos, como se costuma imaginar e demonstrar alguns filmes de ação e aventura. Veja o exemplo real dos índios brasileiros, quando o Brasil foi descoberto. Posteriormente, os índios de uma tribo tornaram-se violentos e assassinos de brancos, porque um homem branco havia assassinado primeiro um deles. Ou seja, eles além de selvagens eram mansos e ingênuos, mais puros e mais inocentes que os brancos espertos e maliciosos (homens modernos e civilizados), para não dizer, religiosos.
Os índios não matavam por matar simplesmente, ou pelo prazer de matar, conforme faz o caçador que caça por esporte (sem necessidade). Os índios aprenderam a matar por necessidade e costume, não ao seu próximo, mas uma caça para se alimentar, por exemplo. Já às civilizações antigas que sacrificavam pessoas aos seus deuses, isso era uma questão de crença religiosa (equívoco intelectual), ou imaginação da mente.
Quanto à "paz" descrita também no texto acima, Nietzsche quer dizer que confundiram liberdade com ausência de paz, ou com desordem. Malícia da mente.
Continua Nietzsche:
Esses organizadores natos não sabem o que são a falta, a responsabilidade, a administração; neles reina esse terrível egoísmo de artista com olhar de aço que se sente justificado de antemão, desde toda a eternidade, em sua "obra", como a mãe no filho... Esse instinto de liberdade, tornado latente pela violência (pela repressão religiosa imposta) - compreende-se isso já e facilmente - esse instinto de liberdade pisoteado, encarcerado no interior, obrigado a desenvolver-se e desvincular-se dentro de si mesmo: é isso, nada mais que isso, em seus inícios, a má consciência (consciência de pecado).
O que Nietzsche chamava de "má consciência" significa o estado de consciência que a humanidade se encontra ainda hoje. Era o que ele costumava denominar também de "falta" (ou dívida para com a divindade). Ou seja, sentimento de culpa ou idéia de "pecado" que algumas vezes ele chamava de "remorso". A autopunição da mente que nos condena em vão até hoje devido às religiões moralistas. A pessoa se sente imaginariamente em falta ou em dívida para com Deus, por não saber que Deus é a sua própria vida real, inocente e amável, e não apenas um pensamento negativo.




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