Falsa Psicologia de Redenção
Para nós, já passou o tempo de ficar pensando no poder do Espírito, só em termos de redenção da nossa pequena existência humana. Abandonemos o interesse excessivo por nossa vida ou nosso corpo e comecemos a ver e a perceber o poder do Espírito como uma força universal na consciência dos homens.
Que diferença podem fazer os próximos dez, quinze, vinte ou trinta anos de nossa breve vida humana? O que há de tão importante quanto a eles, que nos faria devotar nosso tempo e estudo para as coisas do Espírito somente a eles? (Joel S. Goldsmith, em "As Palavras do Mestre").
Agora vamos observar atentamente como o filósofo Nietzsche tentou em sua época obter uma maneira puramente psicológica para explicar a diferença entre a vida real e o pensamento abstrato (imaginação). Embora a meu ver, apesar dele ter sido brilhante e ter me auxiliado muito na compreensão desta questão fundamental, o alemão Eckhart Tolle e também Joel S. Godsmith, conseguiram ser mais claros e mais convincentes do que ele. Mas a sua importância foi fundamental também na edificação desta verdade científica (vir a ser). O despertar infinito da consciência espiritual da humanidade. Não exatamente vir a ser quem não somos:
Refletindo cuidadosamente, deve ser possível obter uma explicação isenta de mitologia para esse fenômeno da alma do cristão que é denominado necessidade de redenção: ou seja, uma explicação puramente psicológica.
O indivíduo (religioso) se compara com um ser que sozinho é capaz de todas as ações chamadas altruístas, e que vive na contínua consciência de um modo de pensar desinteressado: Deus; é porque olha nesse espelho claro que o seu ser lhe parece tão turvo, tão incomumente deformado. Depois o angustia o pensamento do mesmo ser, na medida em que este paira ante sua imaginação como a justiça punidora: em todas as vivências possíveis, grandes ou pequenas, acredita reconhecer a cólera e as ameaças dele, e mesmo pressentir os golpes de açoite de seu juiz e carrasco. Quem o ajudará nesse perigo, que, em vista de uma duração imensurável da pena, supera em atrocidade todos os outros terrores da imaginação?
Antes de expormos as outras conseqüências desse estado, confessemos a nós mesmos que o homem não caiu nele por sua "culpa" ou "pecado", mas por uma série de erros da razão; que foi uma falha do espelho, se sua natureza lhe pareceu obscura e odiável a esse ponto, e que esse espelho foi obra sua, a obra muito imperfeita da imaginação e do juízo humano.
Se o cristão foi levado ao sentimento de autodesprezo por alguns erros, isto é, por uma interpretação falsa, não científica, de suas ações e sentimentos, deverá perceber com assombro que esse estado de desprezo, de remorso, de desprazer, não persiste, e que ocasionalmente tudo isso é afastado de sua alma e ele se sente livre e corajoso novamente. O prazer consigo mesmo, o bem-estar com a própria força, aliados ao enfraquecimento necessário de toda emoção profunda, levaram a melhor; o homem sente que de novo ama a si mesmo - mas justamente esse amor, essa nova auto-estima lhe parecem inacreditáveis, neles só pode ver o totalmente imerecido descenso de um raio de graça. Se antes ele acreditava distinguir em todos os acontecimentos avisos, ameaças, castigos e toda espécie de sinais da ira divina, agora interpreta suas experiências de modo a lhes introduzir a bondade divina: tal evento lhe parece pleno de amor; aquele outro, uma indicação benfazeja; um terceiro e a sua própria disposição alegre, demonstração de que Deus é piedoso. Se antes, no estado de pesar, interpretava falsamente suas ações, agora faz isso com suas vivências; apreende o seu consolo como o efeito de uma força externa; o amor, com que no fundo ama a si mesmo, aparece como amor divino; aquilo que chama de graça e prelúdio da redenção é, na verdade, graça para consigo e redenção de si mesmo.
Portanto: determinada psicologia falsa, certa espécie de fantasia na interpretação dos motivos e vivências são o pressuposto necessário para que alguém se torne cristão e sinta necessidade de redenção. Percebendo a aberração do raciocínio e da imaginação, deixa-se de ser cristão. (Nietzsche em "Humano, demasiado humano").
Dessa forma ele aponta a evolução da religião, saindo da imaginação da mente e se dirigindo rumo à realidade da vida prática, aqui e agora.
Na realidade, quando o indivíduo ainda está preso (identificado e apegado) a mente, em seus pensamentos, em suas crenças antigas, ele não sabe quem ele é. Ele pensa que ele é o cérebro, os pensamentos abstratos (ilusão). Assim permanece num estado sonolento de consciência. Enquanto isso ele é apenas fruto do que acredita ser. Isto é algo semelhante ao que Jesus dizia: "Seja feito conforme você crer".
Quanto à frase: "deixa-se de ser cristão", na verdade Nietzsche se refere à libertação da vida, o despertar da consciência espiritual do indivíduo, não importando qual seja sua crença. O importante é diferenciar o que é realidade e o que é imaginação.
Neste estado limitado de consciência o indivíduo ainda não sabe que somos a própria Vida (Consciência), além do cérebro duplo. Enquanto isso, na verdade a vida real não necessita de redenção, salvação, nem iluminação, pois a vida já é tudo isso e muito mais agora mesmo. Por isso quando utilizamos palavras como "auto-redenção" ou "iluminação", é necessário explicar que isso significa o despertar da consciência da "nossa vida" real (nosso despertar), e não o ego (crenças) que pretende ser "santo" ou "perfeito" no futuro. Porque isso não existe, é uma ilusão mental (baixa auto-estima). Pessimismo.
O ego humano não pode evoluir, nem ser iluminado, o máximo que ele consegue é a decadência e a destruição enquanto busca a sua imaginária perfeição no futuro, porque ele vai ficando cada vez mais forte (egocêntrico, orgulhoso, "santo"). Mas importa saber que não somos cérebros complexos (pó da terra ou das estrelas), nem pensamentos. A vida única que somos, é o que é, simples, inocente, natural!
Havia pessoas que por não saber menosprezavam a vida real, mas percebendo a desvantagem disso, optaram por valorizar mais a vida real. Cansaram de uma crença sombria que amaldiçoava a vida e glorificava o imaginário.
Uma transformação íntima ocorre, quando as crenças antigas e pessimistas são ignoradas ou substituídas por outras melhores e mais otimistas. Mas isso exige uma mente flexível, contudo não significa ainda uma experiência direta com a vida real interior, trata-se apenas de uma nova crença intelectual (imaginação), embora mais otimista e mais saudável. Porém, se a pessoa quiser realmente sentir a vida profunda interior, basta sair da imaginação (passado e futuro), voltar à atenção para a realidade agora e sentir atentamente a respiração. Isso equivale voltar para dentro de si e ficar atento à voz interior.
Para acessar ou sentir a consciência profunda da vida real interior agora, primeiro, todavia experimentamos (sentimos) através do silêncio mental (atividade da consciência universal da vida), esta verdade infinita, e depois tentamos explicar através das palavras mais adequadas ao momento. O próprio apóstolo Paulo pedia para os iniciados sentirem, e não entenderem apenas com o intelecto. Confira na Bíblia em "Filipenses 3:15 e 16".
Quando conseguimos perceber ou sentir a vida real e original dentro de nós agora, no silêncio interior (atividade da vida), os pensamentos (atividade do ego) silenciam e conseguimos nos libertar da ilusão do passado e do futuro, e nos concentramos com facilidade na realidade presente (agora eterno).
Quando se busca uma perfeição no futuro, é porque o indivíduo acredita negativamente que a sua verdadeira natureza seja imperfeita agora. Mas, se a vida não é perfeita (natural) agora, ela nunca poderá ser porque não existe futuro ou tempo, conforme veremos mais exemplos, pois o tempo é uma ilusão da mente, inclusive a ciência já chegou a esta mesma conclusão. Tudo sempre acontece agora, nunca amanhã, só existe agora, o atemporal (ausência de tempo). Inclusive o filósofo Spinoza também negou o tempo, e Nietzsche denominou de "tempo" a própria eternidade do agora. Porque, se "somente o tempo é eterno", conforme ele afirmou logo ele estava se referindo a eternidade, e não ao tempo imaginário (passado e futuro). Imaginação.
A mente dualística é que vive sempre em função do passado e do futuro, esperando em vão alcançar uma solução no futuro imaginário, menosprezando o agora, a vida real. Mas na verdade "a hora é agora!", "o reino de Deus está próximo" e não longe (no além), segundo a linguagem de Jesus. Só o momento presente é real, o pensamento abstrato é imaginação (ilusão da mente).
Muitos ainda acreditam que há algo superior no imaginário, até mesmo superior à própria vida real. Confundem o irreal com real, e o real com irreal. Enquanto isso, não basta à ciência dizer hoje que o tempo é uma ilusão, é preciso explicar como tal ilusão ocorre, senão ninguém entenderá nada. Na verdade, o pensamento é apenas um projeto abstrato, como um projeto virtual no computador. Tais projetos, tanto do cérebro como de um computador, só podem ser concretizados através da ação prática da vida real, em seus diferentes graus de lucidez (consciência). É o estado de consciência que determina sempre a qualidade do que realizamos agora.
Na realidade, o tempo não é uma ilusão apenas por ser uma ilusão, significa que o tempo é uma ilusão porque o tempo (passado e futuro) não existe, senão para a nossa mente (cérebro duplo). Ou seja, existe somente a eternidade (o agora eterno, o atemporal), que Nietzsche denominou de "tempo eterno". Mas o nosso cérebro duplo sempre divide a eternidade presente em duas partes: "passado e futuro", (falsa metafísica da religião pessimista, devaneio mental), que tanto Nietzsche questionou, porém não entenderam. E o interessante é que Nietzsche inclusive utilizou também o termo "religião pessimista".
Quando a ciência perceber melhor a grande mentira, a ilusão de nossa mente, a falsa metafísica, significa o fim da crença moralista dos fariseus que prevaleceram até hoje (fim dos tempos, passado e futuro).
Muitos continuam pregando a vida eterna no além (futuro longínquo, impossível de alcançar). Porém tal doutrina pertencia aos fariseus e a João Batista. Mas Jesus, pelo contrário divulgou o reino de Deus próximo, íntimo, agora mesmo. Vida real.
Buscar no futuro imaginário uma virtude ou qualidade que já pertence à vida agora significa não saber quem somos realmente. Isto é conseqüência de pensamentos equivocados (erro da razão), promovidos por crenças antigas (padrões de pensamentos condicionados do passado).
Não adianta buscar fora ou no futuro, o que já somos. Isto é ilusão de nossa mente. Não precisamos almejar ser "alguém" na vida (ser quem não somos), porque somos a própria vida. Não precisamos desejar ser santo ou virtuoso, porém ser apenas o que somos (eu sou o que sou, com ou sem artifício). A verdade precisa vir a ser o que já é (revelar-se agora), vir de dentro para fora.
Não precisamos desejar algum poder, porque não há nenhum poder fora de Deus (Onipotência). O único poder de Deus através de sua Onipresença, pode se expressar através nós, à medida que nos tornamos cientes de tal realidade interior agora. Contudo, tal poder não é humano, mas espiritual. Logo, "de mim mesmo nada posso fazer" (linguagem de Jesus).




1 de julho de 2009 10:59
Muito Obrigado
Esse Blog é demais kra !!
Tenho 19 anos, entrei meio que acidentalmente aqui, e pelo pouco que li, entendi que realmente a religião não é uma perda absoluta de tempo, sempre achei que a doutrina tava extremamente psicotica, escrita por religiosos loucos, condicionados pela tradição e cegos pela fê...
Mais compreendi agora, que não é a Religião quem esta errada, mais sim seus seguidores, que desvirtuaram os principios e distorceram a religião. Enfim... Muito Obrigado!
1 de julho de 2009 11:38
Uma pessoa tão jovem como você, com uma percepção desse nível, é algo muito raro. É necessário ir além da religião para poder perceber sua essência. Para sua reflexão, leia: “Avante no caminho da sabedoria, com um bom passo, com firme confiança! Seja você como for, seja sua própria fonte de experiência! Livre-se do desgosto com seu ser, perdoe a seu próprio Eu, pois de toda forma você tem em si uma escada com cem degraus, pelos quais pode ascender ao conhecimento” (Nietzsche). Obrigado pelo comentário!