A Moral Como Sintoma de Decadência

Confira agora uma grande descoberta do filósofo Nietzsche em sua época:


A própria moral vista como sintoma de decadência é uma inovação, uma singularidade de primeira ordem na história do conhecimento...

A questão da origem dos valores morais é, pois, para mim uma questão capital, porque condiciona o futuro da humanidade.

A perda do centro de gravidade, a resistência aos instintos naturais, numa palavra, o "desinteresse" - aí está o que até agora se chamou moral...


A única moral que se ensinou até hoje, a moral da renúncia, traduz uma vontade de aniquilamento, nega radicalmente o próprio fundamento da vida. - Aqui permaneceria aberta a possibilidade de não ser a humanidade que está em degenerescência, mas apenas essa espécie parasita de homens, a do padre que, com a moral, se erigiu à força da mentira em árbitro de seus valores - que percebeu na moral cristã seu meio de galgar ao poder...


Lutero, esse monge fatal, restabeleceu a Igreja e, o que é mil vezes pior, o cristianismo, no momento em que este sucumbia... O cristianismo, essa negação do querer viver tornado religião...

O que é cristão é um certo instinto de crueldade para consigo e para com os outros; o ódio aos que pensam de maneira diferente...

A decisão cristã de considerar o mundo feio e mal transformou o mundo em feio e mau.

Sem dúvida o cristianismo afirmou que todo homem é concebido e gerado em pecado, e no insuportável cristianismo superlativo de Calderón essa idéia foi mais uma vez atada e entrançada, de modo que ele ousou o mais estapafúrdio paradoxo nestes versos conhecidos: a maior culpa do homem é a de ter nascido.


Eu condeno o cristianismo, lanço contra a Igreja cristã a mais terrível acusação que jamais acusador algum pronunciou: para mim ela é a maior corrupção imaginável. A Igreja cristã nada poupou à sua corrupção: de cada valor fez um não-valor, de cada verdade uma mentira, de cada integridade uma baixeza de alma.


Que querem realmente? Representar a justiça, o amor, à prudência, à superioridade: essa é a ambição desses seres "inferiores", desses doentes. E que hábeis os torna essa ambição! Esses falsários imitam maravilhosamente a cunhagem da virtude e até seu tilintar, a ressonância própria do ouro, esses homens de virtude.


Entre eles se encontra em profusão aqueles sedentos de vingança com máscara de juízes, tendo sempre na boca a palavra "justiça", como uma baba venenosa, sempre de boca pronta, sempre prontos a escarrar sobre tudo aquilo que não tem a fisionomia triste e anda por seu caminho de bom humor. Nem falta entre eles essa repugnante espécie de vaidosos, abortos costurados de mentiras que querem representar o papel de "almas belas" e que lançam no mercado sua sensualidade reprimida, revestida de versos e outras milongas, classificando-a de "pureza de coração". Essa é a espécie dos onanistas morais que "se satisfazem em segredo".

Aí tendes os benefícios do cristianismo! - O parasitismo, única prática da Igreja, sugando com o seu ideal de anemia e de "santidade", o sangue, o amor, a esperança da vida; o além como vontade de negação da realidade; a cruz como emblema para a mais subterrânea conspiração que jamais se urdiu - conspiração contra a saúde, a beleza, a retidão, o valor, o espírito, a beleza da alma, contra a própria vida.


Hei de gravar em todas as paredes esta acusação eterna contra o cristianismo, em toda a parte onde houver paredes - tenho letras que até os próprios cegos podem ler...

Fui o primeiro a ver logo o verdadeiro contraste: - o instinto que degenera, que se volta contra a vida com um rancor subterrâneo (- o cristianismo, a filosofia de Schopenhauer, em certo sentido já a filosofia de Platão, todo o idealismo, são formas típicas desse instinto) e uma fórmula da afirmação suprema, nascida da abundância, da superabundância, um "dizer sim" sem reserva até mesmo ao sofrimento, até mesmo à culpa, a tudo o que é duvidoso e estranho na existência... Este "sim" definitivo, o mais alegre, o mais exuberante e orgulhoso dado à vida não é apenas a intuição suprema, mas é também a mais profunda, a mais rigorosamente confirmada e sustentada pela verdade e pela ciência. Nada do que existe deve ser subtraído, nada é supérfluo - os aspectos da existência negados pelos cristãos e por outros niilistas são mesmo de ordem infinitamente mais elevada na hierarquia dos valores do que aquilo que o instinto de decadência pode aprovar e chamar bom. Para compreender isso se necessita de coragem e, como condição, um excesso de força: porque só na medida em que a coragem ousa se aventurar, se aproxima precisamente da verdade. O conhecimento, o "dizer sim" à realidade, constituem para o forte uma necessidade da mesma ordem que, para o fraco, a covardia e a fuga diante da realidade - o "ideal" - sob a inspiração da fraqueza...O fraco não tem liberdade de conhecer: os decadentes têm necessidade da mentira, têm nela uma das condições da própria conservação.


A humanidade não está em absoluto no caminho certo, ela não é dirigida em absoluto por uma mão divina, muito pelo contrário, sob a capa dos conceitos de avaliação mais sagrados, está justamente o instinto de negação, de corrupção, o instinto de decadência que reinou como agente de sedução.


A exigência de acreditar
que no fundo tudo se encontra nas melhores mãos, que um livro, a Bíblia, fornece a segurança definitiva sobre o governo e a sabedoria divinos quanto aos destinos da humanidade, é, se for retraduzido em termos de realidade, à vontade de não deixar aparecer à verdade sobre o lamentável estado de coisas contrário, a saber, que a humanidade esteve até agora nas piores mãos, que foi governada pelos fracassados, pelos astuciosos vingativos, os pretensos "santos", esses caluniadores do mundo e violentadores do homem.

Definição da moral: moral - a idiossincrasia de decadentes, com a intenção oculta de se vingar da vida - e isso, com sucesso. Dou muito valor a esta definição.

Ao observar a atitude enérgica do filósofo Nietzsche, contra os cristãos em sua época é que podemos compreender melhor, o fato de Jesus ter sido tão enérgico com os fariseus, chamando-os às vezes de hipócritas e filhos do diabo (pai da mentira - mente que mente). Na verdade, Nietzsche havia também percebido categoricamente que os fariseus prevaleceram e corromperam posteriormente o ensinamento otimista de Cristo. Todavia, não era para menos, afinal os fariseus era maioria. Inclusive os próprios apóstolos Paulo e João Evangelista, já vinham alertando a respeito disso.


Entretanto, eu particularmente reconheço que hoje existem padres esclarecidos a respeito da verdade da vida. Embora, ainda se refiram a vida interior (Eu Sou, Único Poder), de forma discreta e superficial.


Continua Nietzsche:


Que seres desagradáveis estas pessoas em que toda tendência natural se torna rapidamente doença, algo deformante ou mesmo ignomínia! São elas que nos fazem acreditar que as inclinações naturais, os instintos do homem são maus; são elas a causa da nossa injustiça para com a nossa natureza, para com toda a natureza! Não faltam pessoas que teriam o direito de se abandonar às suas inclinações com graça, com despreocupação: mas não o fazem, com receio desta "má essência" imaginária da natureza! É em função disso que se encontra tão pouca nobreza em meio aos homens, pois a nobreza de uma alma se reconhecerá sempre no fato de não ter medo de si próprio, não esperar nada de vergonhoso e voar sem escrúpulos por toda a parte, tal pássaro nascido livre como é, onde o seu desejo o impele! Aonde quer que vá, será sempre rodeado pelo sol e pela liberdade.

Não é algo terrível transformar sensações regulares e necessárias em fonte de miséria interior, e assim pretender tornar a miséria interior, em cada pessoa, algo regular e necessário?

Não tenha dúvida, é em função da moral (repressão religiosa), má consciência ou idéia de pecado, que se encontra tão pouca nobreza em meio aos homens. Foi mais ou menos assim que Jesus pregou, pois Ele nunca foi abstêmio como João Batista, segundo a Bíblia. Mas os fariseus deturparam tudo ao seu favor, segundo suas crenças.


Mesmo quando eu era evangélico, eu sentia que aquela repressão e idéia de pecado eram algo artificial, forçado e indigesto. Não era aquilo o que eu realmente queria, por isso, eu me sentia sufocado e reprimido, apesar do meu fanatismo. Portanto:


Enxergas agora um erro naquilo que amaste antigamente como verdadeiro ou como provável: rejeita e joga para longe de ti, e imaginas que a tua razão acaba de conseguir uma vitória. Entretanto, talvez este erro, antes, quando eras outro - aliás- nunca deixamos de ser um outro - te fosse tão necessário como as tuas "verdades" de hoje; era uma espécie de pele que te encobria e te velava muitas coisas que ainda não podias ver. Foi a tua nova vida, não foi a tua razão que matou em ti aquela idéia: já não tens mais necessidade dela, e ela se quebra e a sua falta de razão aparece de dentro dela como um verme que vem à luz. Quando exercemos a nossa crítica, não é arbitrariamente, nem de forma impessoal, mas sim, e muito amiúde, porque há em nós um impulso de forças vivas em via de se libertar da sua casca. Negamos e somos obrigados a fazê-lo, porque há em nós qualquer coisa que quer viver e quer afirmar-se, alguma coisa que talvez ainda não conhecemos, que não vemos ainda! (Nietzsche em "A Gaia Ciência").

Que percepção incrível! Nietzsche aqui estava falando claramente a respeito da vida interior (consciência espiritual profunda, lucidez). O que ele descreveu aqui foi uma experiência íntima dele próprio. Algumas pessoas já passaram realmente por isso, inclusive eu. Por isso ele não foi um pastor protestante, conforme desejava sua família, porque ele foi além da religião, assim como Schelling e Herman Hesse.


Segundo ele:


Esses professores da moral que recomendam ao homem acima de tudo que se autodomine, dão-lhe dessa forma, uma singular doença, ou seja, uma constante irritabilidade e uma comichão a todas às emoções e inclinações mais naturais. Seja o que for que lhe aconteça daqui para frente, seja de fora, seja de dentro, seja o que for que ele aí encontre ou que o atraia, ou que o incite, ou que empurre, parece sempre a este ser irritadiço que o seu domínio sobre si corre os maiores perigos: já não tem o direito de se fiar em nenhum instinto, de se abandonar a nenhum impulso livre, mantém-se na defensiva, sem repouso, eriçado de armas contra ele próprio, o olhar atento e desconfiado, mantendo eternamente diante da própria torre uma guarda que se impôs a ele mesmo. Por certo, ele pode ser grande nesse papel! Mas como se tornou insuportável aos outros, pesado para si mesmo, pobre, enfim, hermeticamente fechado aos mais belos acasos da alma! (A Gaia Ciência).

Através destas palavras verdadeiramente sábias e profundas do filósofo Nietzsche, podemos perceber que além de filósofo ele foi um grande psicólogo, assim como Jesus.


0 comentários:

Postar um comentário

Em "Comentar como" (logo abaixo) escolha uma das opções de perfil, depois clique em "Postar comentário":
- Coloque a URL de seu blog ou site (se tiver), no local correto;
- Os comentários são publicados após analisados.

Não serão aprovados comentários:
- ofensivos;
- não relacionados ao tema;
- com propagandas incluídas no texto.
Obrigado pela visita!

Maior é o que está em vós do que o que está no mundo (I João 4:4)

BlogBlogs.Com.Br